SPP alerta para perigos do tabagismo face estudo do potencial benefício da nicotina na COVID-19
27/04/2020 16:21:53
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SPP alerta para perigos do tabagismo face estudo do potencial benefício da nicotina na COVID-19

Perante as notícias recentemente divulgadas que apontam um efeito protetor da nicotina contra a COVID-19, a Sociedade Portuguesa de Pneumologia (SPP), através da sua Comissão de Trabalho de Tabagismo, emitiu um comunicado, no qual reforça a sua preocupação com o impacto do novo coronavírus nos dois milhões de portugueses consumidores de tabaco.

 

“A SPP está totalmente alinhada com a Organização Mundial de Saúde (OMS), que alerta para o perigo da controvérsia causada pela indústria tabaqueira com a divulgação de informação imprecisa e não fundamentada sobre o efeito protetor da nicotina, e reafirma que os fumadores podem sofrer condições mais graves da doença COVID-19”, frisa a sociedade científica, no comunicado emitido hoje, dia 27 de abril.

“A nicotina é uma substância altamente aditiva que causa dependência nos seus utilizadores não existindo qualquer evidência sobre o seu efeito protetor”, acrescenta a entidade.

O organismo relembra que o tabagismo está associado a várias patologias crónicas, nomeadamente doença respiratória, cardiovascular, diabetes e cancro, entre outras, alertando que doentes com estas patologias têm maior risco de doença grave por COVID-19, de acordo com dados da OMS e da Direção-Geral da Saúde (DGS).

“O tabagismo tem um efeito nocivo para o sistema imunitário, tornando os fumadores mais vulneráveis às infeções, incluindo possivelmente o novo coronavírus. Outra questão preocupante é o contacto mão-boca realizado frequentemente e repetidamente pelos fumadores, que constitui uma forma de infeção reconhecida”, sublinha.

A SPP adianta que, apesar da escassez de estudos, “já há evidência científica que mostra que os fumadores têm maior risco de progressão para doença grave, maior risco de internamento em Unidade de Cuidados Intensivos com necessidade de ventilação mecânica e maior risco de morte, em comparação com os não fumadores”.

O comunicado surge na sequência do estudo do Prof. Doutor Jean-Pierre Changeux, do Instituto Pasteur, em França, que coloca “a hipótese da nicotina impedir o coronavírus de se fixar no recetor celular que ele normalmente utiliza”, evitando que penetre nas células e se espalhe pelo organismo. A SPP salienta que o trabalho em causa “aguarda ainda revisão científica”, revelando existir “evidência clara de ligação à indústria tabaqueira, no passado, por um dos autores do estudo que coloca a hipótese do efeito protetor da nicotina, o Prof. Doutor Jean-Pierre Changeux”.

A Sociedade destaca que o artigo “é baseado num outro estudo, realizado com 343 doentes”, realçando alguns aspetos que comprometem os resultados obtidos: “O facto da taxa de prevalência de tabagismo nesta amostra hospitalar ser menor que a da população em geral não significa que tem um efeito protetor, na medida em que apenas grandes estudos de coorte bem fundamentados são apropriados para responder a questões sobre associação de fatores de risco a determinada doença ao longo do tempo, o que não acontece neste estudo”.

Da mesma forma, continua a entidade, os dados colhidos são imprecisos: “Por exemplo, no grupo dos ex-fumadores, não é discriminado o tempo de abstinência (o que poderá incluir doentes que fumaram o último cigarro pouco tempo antes da avaliação). Além disso, a prevalência de ex-fumadores parece ser elevada, não são mostrados dados ajustados ao sexo e idade e não é fornecida verificação bioquímica da abstinência tabágica”, realça.

Estas mesmas limitações são destacadas pelos autores do estudo original, sendo também apontadas pela comunidade científica, acrescenta, frisando que “deve ser tido em conta que ser fumador e efeito protetor da nicotina são conceitos diferentes, que não devem ser confundidos”.

Nesse sentido, a SPP reforça a posição defendida pelo Prof. Doutor Filipe Froes, que considera que, “nesta altura, a necessidade de divulgar conhecimento científico faz com a revisão e o rigor sejam mais frágeis, existindo estudos que não seguem metodologias corretas e que tiram conclusões precipitadas. Existe demasiada especulação para os curtos meses que a doença tem e acaba por se valorizar o que se quer ouvir para se fazer o que se quer fazer”, conclui.

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