“O Prémio MSD de Investigação em Saúde traz valor óbvio para a investigação clínica”
19/10/2020 14:48:50
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“O Prémio MSD de Investigação em Saúde traz valor óbvio para a investigação clínica”

A MSD Portugal promove, a 21 de outubro, pelo segundo ano consecutivo, a Conferência "Leading Innovation, Changing Lives”, que, além do debate sobre a importância da investigação científica para o futuro da Medicina em Portugal, será palco do anúncio do Prémio MSD de Investigação em Saúde. Em entrevista à News Farma, o Prof. Doutor Nuno Sousa, presidente da Escola de Medicina da Universidade do Minho e membro do júri, partilhou a sua visão sobre a relevância da iniciativa, bem como sobre o tema do evento – “Nova Realidade, Novos Desafios – impacto de uma pandemia”.

News Farma | Que relevância atribui à Conferência Leading Innovation, Changing Lives?

Prof. Doutor Nuno Sousa | A minha interpretação da conferência é que a MSD está a fazer um trabalho muitíssimo bom na área da promoção da investigação clínica que é feita em Portugal e está a abrir horizontes para aspetos que estão a mudar na nossa sociedade de uma forma cada vez mais acelerada e que nós temos de incorporar naquilo que são as nossas práticas – práticas ao nível de prestação de cuidados de saúde, da investigação, da geração de conhecimento, das competências que temos de incluir na formação dos nossos prestadores de cuidados de saúde. Portanto, penso que é um alerta construtivo para estas novas realidades e para a necessidade de nos reposicionarmos e estarmos melhor preparados para enfrentar o futuro.

Quais as expectativas para esta segunda edição da conferência, tendo em conta o contexto pandémico?

As minhas expectativas é que aquilo que eu acabei de enunciar como objetivos seja possível debater, no sentido de construção, de políticas que nos permitam estar melhor preparados para fazer o que temos de fazer daqui para a frente – muito acelerado pelo contexto pandémico em que vivemos e que nos dá uma consciência muito mais aguda das novas realidades. Espero também que seja um espaço de debate onde as ideias são apresentadas e o seu contraditório é defendido. E que não seja um espaço onde todos vamos dizer a mesma coisa e sair do debate com a sensação de “pronto, disse o que achava que tinha de dizer e ninguém me contrariou e está tudo bem”. Sinceramente, não acho que é assim que se constrói o futuro. O futuro constrói-se na discussão aberta e na discussão do exercício daquilo que nós achamos e do oposto daquilo que nós achamos para ouvir as diferentes perspetivas e, dessa forma, chegarmos a posições que não sejam posições de compromisso, mas que sejam posições de consenso, que, na minha perspetiva, é diferente de compromisso. Espero que esta edição renove algumas das discussões que aconteceram na primeira edição e que este debate aberto tenha, de facto, lugar.

Quais foram os maiores desafios que o setor da saúde encontrou devido à pandemia?

Em primeiríssimo lugar, o conhecido. O setor da saúde enfrentou um desafio como há décadas não enfrentava, uma coisa sem precedentes e totalmente inesperada. É uma situação que nos projeta para a angústia do desconhecimento quase absoluto da patologia, da fisiopatologia, da forma de intervir. O sistema de saúde foi totalmente desafiado de uma forma global e também, obviamente, de uma forma muito aguda, em Portugal, relativamente às questões de saúde pública, sendo que essa é uma área onde o país, e Portugal não é caso único, desinvestiu durante muito tempo. Nós, há várias décadas, que prestamos pouca atenção à saúde pública. O setor da saúde foi desafiado para uma situação de enorme stress condicionado pelo fluxo muito aumentado de doentes às suas unidades prestadores de cuidados de saúde e num contexto em que esse aumento extraordinário do fluxo acarretava medidas complementares de isolamento. O sistema foi desafiado ao nível da prestação de cuidados de saúde àqueles que continuam a ter patologia, porque não podemos esquecer que vivemos num contexto pandémico por uma causa nova, mas que os doentes continuam a padecer das suas patologias e nós temos de continuar a prestar-lhes os melhores cuidados de saúde. Isso sofreu um desgaste notado e o resultado disso é que o número de óbitos cresceu significativamente durante este período e o crescimento significativo não se deve exclusivamente à infeção pela COVID-19. Houve também um aumento das outras causas de morte em que, provavelmente, parte da explicação decorre do acesso aos cuidados de saúde que, nesta altura, esteve comprometido em todo o lado e também aqui em Portugal.
Portanto, os profissionais de saúde sofreram um desafio gigante, porque foram, obviamente, convocados para dar uma resposta massiva em condições muitas vezes muitíssimo difíceis. A sociedade, que também faz parte do sistema de saúde, foi desafiada para ter uma mudança comportamental que, felizmente, foi conseguida em larga medida, mas que coloca desafios gigantes. Nós todos, a sociedade, fomos desafiados para uma nova realidade que coloca desafios societais e que interfere com o nosso bem-estar físico e, claro, com o nosso bem-estar mental e isto é um conjunto absolutamente extraordinário de desafios que o sistema de saúde teve de enfrentar.

E é possível identificar oportunidades?

Eu acredito que as grandes evoluções ocorrem em momentos de crise e seguramente este é um momento de crise. Nós crescemos em situações de crise, tornamo-nos mais criativos em situação de crise e, sobretudo, isso é muito visível quando os fatores desencadeantes da crise deixam de ser tão agudos. Acredito que, quando esta situação sanitária se esbater, e estou seguro de que tal vai acontecer, a sociedade e o sistema de saúde vão sair muito reforçados e vão sair muito reforçados porque nós tivemos de nos adaptar e a adaptação gera conhecimento e aprendizagem. E isso vê-se em múltiplas áreas. Nós, em larga medida, transformamos a formação dos estudantes de medicina e dos estudantes no seu todo, usando muito mais tecnologias digitais que trazem desvantagens, mas também comportam algumas vantagens. Passámos a usar de uma forma muito mais acelerada as novas tecnologias e as vias digitais para a prestação de cuidados de saúde que, obviamente, são também novas formas de garantir acessibilidade de muitas pessoas e isso é também uma grande vitória e, seguramente, uma oportunidade que foi gerada e acelerada por esta situação.

A médio/longo prazo que repercussões poderão existir na área da saúde, devido a este contexto?

Numa pergunta a médio/longo prazo, eu salto logo para a fase em que assumo que o contexto de crise sanitária que vivemos já está controlado ou mesmo resolvido. A frase é “nada fica como de antes” – não será bem assim, mas, seguramente, há várias coisas que irão mudar e não acredito que regressemos a uma prática como a que tínhamos antes da pandemia. Acho que vamos, de facto, incorporar no nosso portefólio de instrumentos ao serviço dos cuidados de saúde novos instrumentos, novas tecnologias, novas metodologias, novas orientações, e estou profundamente convicto de que trazem benefícios para o sistema.

Qual é a relevância deste prémio para as equipas médicas portuguesas?

Todos aqueles que produzem conhecimento científico, neste caso que realizam investigação clínica, fazem-no por uma noção muito aguda daquilo que é a sua missão, que é melhorar os cuidados de saúde. Obviamente que todos nós e todas as equipas gostam de ver reconhecido o seu esforço e gostam de ver o seu esforço apoiado e este prémio, focado em jovens que já deram provas de grande qualidade e têm um enorme potencial, tem esta dupla missão. A missão de dar oportunidade de fazer mais e melhor e a missão de reconhecer um pouco a qualidade do projeto e das ideias que as pessoas apresentam. Portanto, é sempre um privilégio poder participar em iniciativas que trazem este valor óbvio a uma área que ainda apresenta um handicap significativo em Portugal, que é a área da investigação clínica.

E para o futuro da medicina em Portugal?

A relevância é que estamos a reconhecer um projeto, uma equipa que o júri acredita ter grande mérito e grande potencial e, portanto, há sempre a esperança de que este prémio contribua para que esse projeto se concretize e para que estas equipas continuem a concretizar projetos de qualidade e de valor.

Num ano tão atípico como 2020, quais eram as expectativas para a adesão a este prémio?

O ano de 2020 é um ano, em todas as dimensões, atípico, por tudo aquilo que já discutimos e é particularmente atípico para a área da saúde e, portanto, poderia antecipar-se que a participação tivesse uma quebra em relação àquilo que aconteceu na primeira edição. A verdade é que tal não aconteceu e não aconteceu porque esta comunidade é uma comunidade muito ativa, muito resiliente e que acredita que o futuro se constrói através da geração de conhecimento sólido e deu, mais uma vez, a prova de que é capaz de responder aos desafios que tem pela frente, mesmo em condições de grande diversidade.

As inscrições para a Conferência, abertas para profissionais de saúde, estão disponíveis aqui.


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